Bloqueado pelo Irão desde 28 de Fevereiro de 2026, o Estreito de Ormuz perturba uma rota crítica para o comércio global. Bloqueio naval, projecto de portagem, liberdade de navegação: que enquadramento legal se aplica nesta área estratégica? Falamos sobre isso no novo episódio do podcast Quid Juris.
Durante décadas, o Estreito de Ormuz tem sido um ponto constante de tensão entre o Irão e, inversamente, os Estados Unidos e os seus aliados. No meio de novas tensões regionais, o seu papel estratégico está a voltar à tona.
Esta passagem marítima, bloqueada pelo Irão desde 28 de Fevereiro de 2026 em resposta aos ataques perpetrados pelos Estados Unidos e Israel, contém graves problemas: quase 20% das reservas mundiais de petróleo e uma parte significativa do gás natural liquefeito passar por isso todos os dias. Milhares de navios estão atualmente atracados lá, interrompendo uma rota comercial internacional vital. Bloqueio naval americano, navios contornando sanções, um projeto pago… Além da crise geopolítica, a situação levanta inúmeras questões de direito internacional.
Que documentos regulam o trânsito no Estreito de Ormuz? E como se aplicam às decisões tomadas pelos estados envolvidos? Niki Alupi, convidada do podcast, falará sobre isso. O que é lei?.
Estreito de Ormuz: atores que “não estão sujeitos às mesmas regras”
A complexidade jurídica deste território explica-se pela largura do Estreito de Ormuz; as águas do estreito pertencem em parte ao mar territorial iraniano, em parte ao mar territorial de Omã. Assim, “a lei aplicável no Estreito de Ormuz não é a única lei aplicável”, explica Niki Alupi. As regras diferem dependendo se aplicamos a Convenção de Montego Bay de 1982 (também chamada de Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, UNCLOS), acordos especiais ou direito consuetudinário.
A situação é ainda mais delicada porque portanto, os principais intervenientes não estão sujeitos às mesmas regras. Embora Omã tenha ratificado a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, “o Irão não a assinou nem ratificou. Além disso, nem os Estados Unidos”, explica Niki Alupi. A falta de uma base comum exige referência ao direito consuetudinário, que é frequentemente chamado de “constituição do oceano”.
Niki Alupi acrescenta que se o acordo de 1975 entre o Irão e Omã organiza a vigilância do trânsito, não pode desviar-se dos princípios fundamentais. Distingue, em particular, entre a “passagem inocente” (específica do mar territorial) e o “direito de passagem de trânsito” específico dos estreitos internacionais, que é “extremamente central e não pode ser suspenso” mesmo em tempos de guerra.
“O direito do mar é uma lei muito antiga e muito codificada. A maioria das perguntas que você se faz tem, na verdade, respostas legais. (…) O problema, como acontece com qualquer lei e especialmente o direito internacional, é que podemos ignorar ou contornar essas regras”, aponta Niki Alupi.
Bloqueio naval americano em resposta à ilegalidade do bloqueio iraniano
À medida que as tensões militares aumentam e que o cessar-fogo continuaráA questão central passa a ser a questão da liberdade de movimento dentro do estreito. Cada decisão tomada por Teerão é cuidadosamente verificada do ponto de vista do direito internacional. Neste contexto, o Irão justifica parar navios “hostis” como uma situação de conflito. Para um professor de direito público, a resposta é clara: “Não, não se qualifica”. Recorda que o direito de trânsito deve permanecer “contínuo e rápido” e não pode ser suspenso de forma discriminatória pelos Estados costeiros.
Em resposta, os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval em 13 de Abril, um acto de guerra codificado no Manual de San Remo de 1994. Ao contrário do bloqueio iraniano, o bloqueio é uma “barreira de filtro” que deve ser anunciada, notificada e, acima de tudo, “aplicada de forma não discriminatória a todas as bandeiras”. No entanto, A extensão deste bloqueio às águas do Sri Lanka requer atenção especializada: embarcar tão longe de uma zona de conflito envolve “interpretações mais ou menos inovadoras do direito internacional”, semelhantes ao direito Quente nos calcanhares(consiste em interferir sem direito legal na propriedade privada de terceiro para impedir a fuga de uma pessoa que cometeu um crime).
A ameaça do “imposto rodoviário” é uma estratégia viável?
Entre outros aspectos mais controversos das negociações em curso, destaca-se o estabelecimento Taxa de US$ 2 milhões por navio. Se Donald Trump vir “muito dinheiro”Niki Alupi vê perigo para o direito consuetudinário. Ela ressalta que, diferentemente dos canais artificiais (Suez, Panamá), onde se paga pelo serviço, o estreito internacional deve permanecer livre.
Se tal acordo bilateral for celebrado, não será oponível a países terceiros sem o seu consentimento. Surgem então dois cenários: ou um protesto em massa condenando o “resgate” e a violação da lei; Ou aceitação silenciosa, criando Lei especial (Lei especial que se desvia da lei geral) Uma lei especial aplicável apenas em Ormuz.
Enfrentando o surgimento de “frotas fantasmas” e a prática de roubo de identidade (falso) Para contornar as sanções, a comunidade internacional procura uma solução. A França e a Grã-Bretanha estão a considerar formar uma coligação para garantir a passagem. No entanto, Niki Alupi traça um paralelo com a luta contra a pirataria somali na década de 2000. O objectivo não será apenas militar, mas também económico: “ressegurar os armadores” para que reduzam os prémios de seguro e estabilizem os preços do comércio mundial, que aumentaram significativamente desde o início da guerra.
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E os maiores processos judiciais do nosso tempo? Todas as semanas, o jornalista Laurent Neumann explica a notícia através das lentes da lei. Ele dá a palavra aos melhores professores, juízes, advogados e especialistas do mundo jurídico. O podcast pode ser encontrado no site e aplicativo da BFM, bem como em todas as plataformas de escuta: Podcasts da Apple, Amazon Música, Dizer ou Spotify.



