O gênero de investigação e mistério sempre ocupou um lugar cativo na biblioteca dos jogadores de PC. Para aqueles que apreciam desvendar crimes, solucionar enigmas complexos e mergulhar em narrativas densas, o mercado oferece opções que vão desde o estilo “noir” clássico até abordagens experimentais. A seguir, compilamos uma seleção de títulos imperdíveis, culminando em uma análise detalhada de Dispatch, uma obra que promete redefinir a fronteira entre jogos e cinema.
Clássicos modernos e mundos abertos
A lista começa com a excentricidade de Paradise Killer, da Kaizen Game Works. Aqui, o jogador assume o papel de Lady Love Dies, uma investigadora trazida de volta do exílio para solucionar assassinatos em Paradise Island. O diferencial está na liberdade total: em um mundo aberto, é possível interrogar habitantes e coletar evidências na ordem que desejar, construindo o caso de forma não linear.
Para quem busca uma ambientação histórica, L.A. Noire é a referência absoluta. Situado na Los Angeles da década de 1940, o título da Team Bondi e Rockstar Games coloca você na pele do detetive Cole Phelps. O jogo se destaca pela tecnologia revolucionária de captura facial, essencial para ler as expressões dos suspeitos durante os interrogatórios, além da opção estética de jogar em preto e branco para emular o cinema noir.
O sobrenatural e as fábulas urbanas
Fugindo do realismo, Murdered: Soul Suspect inverte a lógica tradicional ao fazer com que o protagonista, Ronan O’Connor, precise solucionar o próprio assassinato. Como um fantasma na cidade de Salem, o jogador utiliza habilidades sobrenaturais para influenciar o mundo dos vivos e caçar um serial killer.
Já The Wolf Among Us, da Telltale Games, adapta os quadrinhos de “Fables”. O xerife Bigby Wolf deve manter a ordem em Fabletown, uma comunidade oculta em Nova York habitada por personagens de contos de fadas. Como é típico da desenvolvedora, o foco reside na narrativa ramificada e nas decisões difíceis que moldam o caráter do protagonista e o desfecho da trama.
Quebra-cabeças e complexidade psicológica
Outras abordagens inovadoras incluem Murder by Numbers, que mistura a estrutura de visual novel com a lógica dos quebra-cabeças “nonogramas”. Ambientado nos anos 90, o jogo segue a atriz Honor Mizrahi e o robô SCOUT, exigindo que o jogador resolva puzzles matemáticos para encontrar pistas.
No espectro psicológico, Disco Elysium se destaca como um RPG focado em diálogos internos e testes de habilidade. O jogador controla um detetive amnésico cujos atributos — como Intelecto e Psique — debatem entre si, influenciando diretamente a forma como o mundo e o caso são percebidos.
A proposta cinematográfica de Dispatch
Enquanto os títulos acima consolidaram o gênero, novas produções buscam estreitar ainda mais os laços com outras mídias. É o caso de Dispatch, do AdHoc Studio. Embora muitos estúdios tentem, sem sucesso, borrar a linha entre videogames, cinema e TV, esta produção modesta consegue triunfar onde grandes orçamentos falham. Com lançamento para Nintendo Switch em 28 de janeiro, a aventura episódica funciona quase como uma série de televisão interativa.
A trama acompanha Robert Robertson III, um homem comum em um mundo de heróis, piloto de um traje mecha construído por seu avô. Após uma tragédia familiar causada por um vilão, Robert aceita um emprego na Superhero Dispatch Network (SDN). Sua função é coordenar esquadrões de heróis, mas o “pulo do gato” é a sua equipe: um grupo formado inteiramente por ex-vilões em sua última chance de redenção.
Narrativa e performance
Ao contrário do que se poderia esperar, Dispatch não tenta ser uma história profunda sobre luto ou trauma, embora toque nesses temas. O foco da AdHoc está em familiarizar o jogador com o elenco. A performance de Aaron Paul como o protagonista Robert é um dos pontos altos. Inicialmente, sua entrega pode parecer monótona, mas logo revela camadas sutis de complexidade emocional, alternando entre o calor de uma conversa entre amigos e a convicção de quem encontrou um novo propósito.
O roteiro aposta em uma comédia de ambiente de trabalho (“workplace comedy”) para suavizar as arestas dos personagens. Na prática, a equipe de ex-vilões se comporta mais como colegas de trabalho problemáticos do que como monstros irredimíveis. Essa dinâmica, aliada a diálogos afiados e uma direção de cena impecável, garante que as relações pareçam vibrantes e genuínas.
Mecânicas e direção de arte
Para evitar o rótulo de apenas uma “visual novel”, o jogo insere elementos interativos onde você gerencia os turnos de despacho, decidindo quais chamados atender e quem enviar. Cada membro do “Z-Team” possui pontos fortes específicos, exigindo estratégia. Contudo, o verdadeiro brilho de Dispatch reside na sua “mise-en-scène”. O bloqueio de cena, a animação e o ritmo são executados com maestria, conferindo a cada episódio um ar de prestígio. Até mesmo o elenco de apoio, composto em parte por influenciadores, traz um charme rústico que soa mais natural do que atuações excessivamente polidas.
Apesar de a história central ser relativamente genérica, a forma como ela é apresentada coloca Dispatch como um exemplo refinado de como os jogos podem absorver técnicas cinematográficas — não através de fotorrealismo ou ação desenfreada, mas através da construção de cena, escrita e das nuances nas relações humanas.