Robôs agrícolas, dirigíveis autônomos a hidrogênio, inteligência artificial emocional, redes 6G ou carregamento rápido de veículos elétricos: na VivaTech 2026, a IA não é apenas um software que fala. Agora está incorporado em objetos, infraestruturas e máquinas que interagem com o mundo real. Um desenvolvimento que marca a entrada da inteligência artificial numa nova fase do seu desenvolvimento, tendo como pano de fundo a busca da Europa pela soberania tecnológica.
Há quase três anos, a inteligência artificial tem sido associada a assistentes de conversação. ChatGPT, Claude, Gemini ou Mistral popularizaram a tecnologia que pode responder perguntas, escrever textos ou gerar imagens. Mas andando pelos corredores da VivaTech 2026, que abre suas portas nesta quarta-feira em Paris, uma coisa é certa: a IA saiu da tela.
A maior feira de inovação da Europa poderá ser um ponto de viragem. Depois de uma era de demonstrações espetaculares e de promessas por vezes abstratas, a inteligência artificial manifesta-se agora em objetos, infraestruturas, veículos, robôs e até equipamentos industriais. Já não se contenta em comunicar apenas com os utilizadores; ele atua no mundo físico.
Biometria e robótica
Esta evolução reflecte-se em algumas das inovações apresentadas este ano. A startup suíça Ovomind representa esta nova geração de inteligência artificial. A tecnologia analisa dados biométricos coletados por relógios conectados em tempo real para determinar o nível de estresse, fadiga ou envolvimento do usuário. Amanhã, os veículos poderão alterar o seu comportamento para o estado de alerta do condutor, os videojogos para ajustar o cenário às emoções do jogador ou as aplicações de saúde para detectar os primeiros sinais de cansaço. A IA não entende apenas palavras; ele agora procura interpretar suas emoções.
Um movimento semelhante é feito na robótica. A empresa francesa Enchanted Tools anunciou na VivaTech uma nova geração de robôs humanóides destinados a auxiliar os profissionais em suas tarefas de serviço. Um robô colorido com um display frontal exibindo várias expressões.
Na vinha, a empresa Bienesis fornece uma cobertura robótica que pode apoiar os trabalhos agrícolas. A inteligência artificial torna-se então uma ferramenta de campo, enfrentando as restrições da realidade e não apenas dos dados digitais.
Dirigíveis autônomos e extensores de alcance para carros elétricos
O setor dos transportes não está imune a esta transformação. A jovem empresa HyLight apresenta um dirigível autônomo a hidrogênio destinado à inspeção de infraestrutura e vigilância industrial. O dispositivo visa substituir determinadas missões atualmente realizadas por helicópteros, com pegada ambiental reduzida.
De forma ainda mais espectacular, a empresa de Faraday afirma ser capaz de adicionar até 300 quilómetros de autonomia aos veículos eléctricos em apenas dois minutos de carregamento, graças a um pequeno reboque cheio de baterias, ligado ao veículo. Se a tecnologia cumprir a sua promessa, poderá remover uma das principais barreiras ao desenvolvimento da mobilidade eléctrica em massa.
Possui 6G para rede móvel
A IA também investe na infraestrutura invisível que constitui a nossa sociedade. A Ericsson já está a trabalhar na rede 6G do futuro com o programa INTENTION-6G. O Club Med utiliza inteligência artificial para otimizar o recrutamento, antecipar compras ou responder automaticamente aos clientes. Para a Invoxia, a empresa revelou uma nova geração de rastreadores GPS que podem fornecer monitoramento permanente em tempo real.
Por trás dessas inovações está outra forte tendência para esta edição de 2026: a soberania tecnológica. Raramente tal assunto está presente no VivaTech. O anúncio da França 2030, os novos projetos apoiados no âmbito dos “Pioneiros da IA”, as iniciativas em torno da nuvem soberana ou mesmo o programa franco-alemão partilham a mesma preocupação: reduzir a dependência da Europa da tecnologia americana e chinesa.
A IA está amadurecendo
O contexto internacional explica em grande parte esta evolução. As restrições recentemente impostas por Washington a certos modelos avançados de inteligência artificial foram uma surpresa. A Europa não quer apenas regular a tecnologia desenvolvida noutros locais; quer produzir, controlar e financiar.
Esta décima edição do VivaTech parece a era da inteligência artificial. Depois de aprenderem a falar, agora aprendem a ver, sentir, mover-se e agir. Uma mudança silenciosa, mas profunda. Porque se a revolução digital já é virtual há muito tempo, a próxima será decididamente física.



