Hipopótamos chafurdam em uma lagoa no Parque Hacienda Napoles, que já foi propriedade privada do traficante Pablo Escobar, em Puerto Triunfo, Colômbia.
Fernando Vergara/AP
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DORADAL, Colômbia — Numa pequena cidade no centro da Colômbia, o ronronar dos hipopótamos tornou-se parte da paisagem sonora.
Todas as tardes em Doradal, moradores locais e turistas se reúnem em um lago na periferia da cidade. Eles conversaram e beberam cerveja enquanto observavam feras gigantes flutuando na água.
“Esta é uma das principais atrações da cidade”, disse Lina Morales, funcionária de um hotel local.
Mas este grupo de hipopótamos – o único rebanho de hipopótamos selvagens fora de África – também se tornou uma ameaça para os seres humanos e para o ambiente local, segundo os cientistas.
A recente proposta do governo colombiano para exterminar os animais gerou um novo debate na saga dos hipopótamos que já dura décadas no país. Agora há também uma contraproposta de um bilionário indiano que diz estar disposto a adotar até 80 hipopótamos e transferi-los para o seu santuário privado de vida selvagem.
“Acho que temos que resolver isso tecnicamente”, disse Sergio Estrada-Villegas, professor de biologia na Universidade Rosário, em Bogotá. “Talvez deixemos nossos sentimentos de lado e pensemos em todo o ecossistema.”
Os hipopótamos são descendentes de quatro animais trazidos ilegalmente para a Colômbia na década de 1980 por Pablo Escobar. O notório traficante tinha um zoológico particular em uma fazenda perto de Doradal, onde também abrigava elefantes, girafas e zebras.
Mas depois que o governo colombiano confiscou as propriedades de Escobar em 1993, ninguém capturou o hipopótamo. E porque não tinham predadores naturais, a sua população explodiu.
Os cientistas estimam que existam hoje cerca de 200 hipopótamos vagando livremente por Doradal, uma cidade cercada por densas florestas e grandes rios.
Alguns dizem que é hora de eliminá-los. A bióloga Nataly Castelblanco-Martinez explica que os hipopótamos depositam grandes quantidades de resíduos em lagos e leitos de rios, causando mudanças drásticas na química da água.
“Isso inclui mudanças no pH e também redução de oxigênio. Portanto, todas as plantas que precisam de oxigênio na água morrerão por causa disso”, disse Castelblanco-Martinez.
Com menos plantas subaquáticas, a cadeia alimentar local sofrerá. “Os hipopótamos têm um impacto transversal no ecossistema”, acrescentou Castelblanco-Martinez.
Mas em Doradal esses animais se tornaram uma atração turística. Estátuas de hipopótamos são exibidas por toda a cidade.
Uma pilha de três estátuas de hipopótamos fica no Parque Hacienda Nápoles, que já foi propriedade privada do traficante Pablo Escobar, em Puerto Triunfo, Colômbia.
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“Eles agora fazem parte da nossa comunidade”, disse a empresária Tania Galindo. “Não há outro lugar fora de África que tenha hipopótamos selvagens.”
Alguns moradores locais agora levam os visitantes em safáris de hipopótamos, enquanto outros vendem chaveiros, camisetas e outros souvenirs com os mamíferos semi-aquáticos.
“A sua população deve ser controlada”, disse Galindo. “Mas de uma forma pacífica que respeite suas vidas e a honra que lhes damos.”
A Colômbia inicialmente tentou conter a população de hipopótamos através da esterilização – primeiro com cirurgia, depois com injeções contraceptivas. Mas o biólogo Castelblanco-Martinez diz que o procedimento é caro e arriscado, dificultando a esterilização em grande escala. Ele acredita que o extermínio é a solução mais eficaz.
“E fazemos isso com peixes-leão. Você vê isso em camelos na Austrália”, disse ele.
Agora, o hipopótamo colombiano pode ter se tornado um salva-vidas. O bilionário indiano Anant Ambani se ofereceu para realocar 80 hipopótamos para sua casa Está perdido santuário de vida selvagem em Gujarat, Índia.
“Este será definitivamente um grande empreendimento”, disse o professor de biologia Estrada-Villegas. Ele permanece cético em relação à proposta do bilionário.
Moradores locais relaxam enquanto observam hipopótamos flutuando em um lago perto de Doradal, Colômbia, 23 de abril
Manuel Rueda/NPR
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“Dependendo de onde estão, quando pescam e capturam, têm que dirigir caminhões e caminhões grandes até o aeroporto de Rio Negro, perto de Medellín. São cerca de 150 quilômetros. Portanto, não é uma tarefa fácil”, disse.
Depois o hipopótamo teve de ser levado de avião para a Índia – uma longa viagem que exigiu escalas.
Então, imagine o que você precisa fazer para manter esses animais seguros e relaxados durante essa viagem? Estrada-Villegas acrescentou.
German Jimenez, biólogo da Universidade Javeriana que publicou vários artigos sobre hipopótamos, disse que há outro desafio: como estes animais selvagens se sairão na reserva natural de 14 quilómetros quadrados de Ambani.
Na natureza, cada hipopótamo precisa de cerca de seis quilómetros quadrados de habitat para sobreviver, explicou Jimenez. Isto significa que os hipopótamos realocados para a reserva Vantara provavelmente ficarão confinados a espaços muito menores e se tornarão dependentes dos humanos para alimentação.
“Se você colocar esses animais próximos uns dos outros, será necessário realizar algum tipo de castração química ou física para controlar o comportamento agressivo”, explica Jimenez.
O governo colombiano está atualmente analisando uma proposta do bilionário, que pretende enviar uma delegação da Índia para estudar os hipopótamos e as áreas onde vivem.
O Ministério do Meio Ambiente da Colômbia disse que a proposta do bilionário iria, por enquanto, apenas “complementar” o seu plano mais amplo para controlar a população de hipopótamos – um plano que ainda inclui o abate de alguns dos animais.
A ideia não agradou a muitos moradores de Doradal, que estavam acostumados a conviver com hipopótamos e, em alguns casos, até se orgulhavam deles. Galindo espera que o governo continue a procurar soluções não letais.
“Matá-los deveria ser apenas o último recurso”, disse ele. “São animais saudáveis que não escolheram vir para cá.”



